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18 abril 2010

a infância é para levar a sério

esta manhã fui à Ilustrarte (último dia!) e foi óptimo, como sempre. fiquei orgulhosa por não ter desistido apesar do tempo feio, do meu humor de domingo de manhã e de não ter companhia.

não vou alongar-me sobre o assunto, mas adoro ver a ilustração para livros infantis ser levada a sério e como arte. tratar as crianças como inteligentes e dar-lhes a apreciar algo estético, por oposição a apenas aparvalhado, nem que seja só para os adultos que lhes compram/lêem/oferecem os livros.

fiquei apaixonada por alguns ilustradores, como Wolf Erlbruch, que deve ser importante, pois tinha uma secção dedicada só a ele. como explicar? para além de as histórias que ilustra serem geniais, desenha a morte mais fofinha de sempre: a Morte anda de camisa de dormir e dá as mãos a um pato. esta ilustração não é o melhor exemplo, mas a personagem aparece noutras histórias, como «A Grande Questão», em que uma criança indaga porque é que está no mundo, e é insuperável.




loves.

12 março 2010

uma breve pausa na minha visualização da Temporada 6 do House para mencionar o bom que isto é.

o genérico do House a ressacar na desintoxicação do hospital psiquiátrico. apesar de eu não gostar muito dos Radiohead, ao som da "No Surprises" é perfeito.

o house no divã. não optaram por fogo de artifício nem os clichés romanceados da tv. kudos to that. e o terapeuta dele. tão bom.


mas parei foi por causa deste diálogo, possivelmente uma das melhores coisas de sempre da Humanidade:

House - Why did you kiss me?
Lidia - How many reasons are there? ...I like you. It felt like a nice way of showing you that.



epah, está tudo dito.



31 janeiro 2010

descobri um blog novo

se deus morreu eu não sei mas nietzsche morreu de certeza 


Ia para a escola, picada pelos meus pais para ser a melhor. Tinha de ser a melhor, a mais atenta, a bem comportada, a espertalhona da turma para depois ouvir em casa
que nota tiveste no teste de português?
mal se ouvia a resposta e já estava lançada num tom desconfortável
“e a Inês? E quem teve a melhor?”
Enchia a cabeça e o ego rarefeito com aquilo que era música para os meus ouvidos – a minha mãe a palrar em almoços de família e convívios toscos com as vizinhas
ai ela é muito aplicadinha, aprendeu o português num instante, aos quatro anos já escrevia o nome e sabia contar até quinze e já queria livros e olha que parecia não estar só interessada nos bonecos
Tinha um problema de difícil resolução – não era bem comportada. Falava muito, nunca estava quieta, o recreio era um território minado de putos cruéis do qual eu tinha de me defender jogando ao ataque
porque era diferente, fazia as contas de outra maneira, tinha a mania de desenhar coisas esquisitas e sempre preferi a minha caixa de 24 lápis de cera com um apara-lápis embutido aos dez lápis de pau viarco que toda a gente tinha, era gorda e não sabia brincar àquelas coisas da macaca e o jogo da mata, que só conhecia barbies.
Fui educada para ser a melhor, era uma questão de sobrevivência – ou tirava boas notas e começava a preparar um futuro brilhante desde o kindergarden ou me assumia como um caso perdido. Sempre me falaram na universidade. O meu pai queria que eu fosse para direito para ser, de preferência, juíza. Na altura pensei que os canudinhos brancos me iriam cair tão mal que o meu pai só podia estar a gozar comigo. Mas fingi durante algum tempo que lá iria, para a tão digna e cheia de merdas Universidade de Coimbra ouvir os caquécticos de Direito e encher a capa preta de insígnias ilustres e efe-êrre-às por todos os lados.
O plano esfodaçou-se todo quando aos dezasseis anos comecei a ouvir Pink Floyd. E Sérgio Godinho e Nirvana e cenas Rock e Punk e outras coisas que contribuíram para o agravamento do meu mau comportamento (se não se deram conta - acabei de escrever em rima). Lá se foram as manias de ser exímia, aprender a tocar um instrumento, inscrever-me em aulas de karaté, concorrer com as miúdas ricas no ginásio, dominar uma outra língua na perfeição, ter uma relação estável com vista ao casamento por forma a juntar terrenos e imóveis e conceder ao meu pai um genro que lhe agradasse.
A minha mãe deixou de ir às reuniões no sétimo ano, diz que não aguentava mais vergonhas, que era sempre a mesma conversa e não tinha respostas para as Directoras de Turma empenhadas em criar turmas assépticas e ordeiras.
No 9º apanhei uma professora de História que decretou três dias de reflexão na escola porque eu tinha tentado matar uma beta que se vestia em tons de rosa bebé
(foi assim: eu era uma adolescente parva (coisa mais normal), aproveitava os furos para desenvolver brincadeiras parvas com outros adolescentes idiotas como eu (coisa mais normal), tentamos interagir de forma parva com uma beta (coisa mais normal) e a beta foi fazer queixinhas à prof (coisa mais normal) e daí se geraram reuniões com professoras a entrar na menopausa e a tomar drunfos e chás de camomila nos intervalos (coisa mais normal) e chegaram à conclusão que pretendíamos assassinar uma beta (coisa mais bizarra)
No final do 12º vieram os exames nacionais, uns quinze dias sem aulas – quinze dias de reflexão e estudo solitário para alguns; quinze dias de garrafões de vinho, martini e poesia para as três virgens suicidas. Na véspera do exame de filosofia tinha mamado uma garrafa de martini blanco (andava farta de vomitar o rosso), cheguei a casa e ferrei no sono só acordando no dia seguinte. Tive 19 e isso fez-me concluir que poderia com facilidade ser artista e uma pensadora brilhante se bebesse muito e fosse melancólica. Portanto, a eficácia da minha vida só dependia do meu fígado e do desenvolvimento da capacidade de alienação, interrogando permanentemente a existência – desde a concepção de deus ao preço do vinho (duas coisas que até comungam várias dialécticas).
Semanas depois tive de ir apresentar a minha média ao Ministério da Educação e fui obrigada a escolher de um a seis o que eu queria fazer nos próximos quatro anos. Chegada ao edifício, abri o livro dos códigos das instituições à sorte e dei de caras com um curso que era tudo e não era nada e foi mesmo isso.
Fui educada para ser a melhor em tudo (apostaram as cartas todas em mim e ainda não entendi porquê). Faço parte daquela geração confusa que foi para a Universidade a pensar
(mas já na fronteira entre o pode ser que sim quase de certeza mas se calhar pode ser que não),
que com um canudo na mão a vidinha já ficaria muito alinhavada. Os anos na Universidade trataram de rasgar toda essa esperança e andávamos ali sem perceber nem um bocadinho o que viria depois do adeus, facto que nos levava a empenhar tostões e afinco em drogas mais ou menos leves, sempre podia ser que a angústia passasse. O afastamento de casa e das conversas paternas era essencial para manter alguma saúde mental mas ainda assim a pressão crescia como uma sombra ao fim da tarde.
E a pressão continua aqui, irrequieta e à espera de nos engolir a todos mal se dê um passo em falso. E cresce bem e alimenta-se sozinha com a taxa de desemprego, orçamento de estado e o défice das contas públicas, corrupção, escutas telefónicas, decretos de lei.
A minha geração sabe o que isto é, conhece estes exageros, viveu histórias muito iguais, tem vários modelos gps pelas montras mas não lhe elucidam direcções, já não tem colos para chorar à noite, as cidades são demasiado grandes para ter amigos por perto e existe a falácia facebook para fazer de conta que não, não gosta de olhar para o talão do multibanco quando vai levantar dinheiro, não tem intimidade com certezas, a televisão mostra a qualquer momento que os edifícios esmagam trinta mil cabeças num instante, toda a gente conhece alguém que se deu mal com tudo isto e trabalha com pouca dignidade num call-center e mesmo assim morre de medo da miséria anunciada num e-mail com más notícias.
Estamos todos fodidos e cada um para seu lado a tentar respirar da melhor maneira.
Sai uma máscara de oxigénio para os estropiados da mesa três, por favor.

Lady oh my Dog! , via Juvenal, o Anormal.

19 janeiro 2010

e para acabar a noite, a minha música favorita do mundo, na melhor interpretação de sempre




é bom que haja pessoas talentosas assim, mas e o resto de nós humanos?

18 janeiro 2010

olá, meninos

bom 2010.

ainda não é hoje que vou pôr um post sobre o que se tem passado na minha mui simples vidinha, mas deixo-vos com alguma informação.

ultimamente, têm chamado a minha atenção duas séries novas. uma é "Dexter", a história de um técnico forense que trabalha para a polícia e, por acaso, é também um psicopata assassino em série nas horas vagas. a outra é "True Blood", uma série sobre a coabitação de vampiros com pessoas normais numa terrinha de um estado sulista nos USA. é interessante ao contrário do que parece.

a razão de estar a falar sobre isto é que ambas têm genéricos excelentes, que passo a mostrar.





acho que posso dizer que gosto de tudo neste genérico. a música, que é tétrica mas também casual, a fotografia e a visão deliciosamente distorcida de uma rotina perfeitamente banal e comum a todos nós. como se constantemente nos quisessem levar a incriminar Dexter para depois nos fazerem perceber que isso é apenas fruto da nossa vontade (ainda que tenhamos razão - ele é frio e metódico) e nos assustarmos com o facto de nos identificarmos com ele, ou pior, não o conseguirmos destacar numa multidão.






no genérico de true blood nem sei bem apontar o que gosto. acho que é da estética em geral.  acho que está muito bem retratada a cultura sulista, com o seu folclore, preconceitos, tradições e lugares-comuns, intercalados com um lado mais crú e naturalista que me faz sentir próxima do ambiente físico que deve ser estar lá. sempre gostei de retratos da vida do dia a dia, com as suas banalidades e podres, por isso acho que deve ter sido por aí que me agarraram. e a música. a música também é muita boa.


e é isto.

18 dezembro 2009

decidi pôr mais coisas de que gosto no blog. o intuito inicial deste blog era ser directo e sincero, sem artifícios, e com o passar o tempo foi deixando de o ser.

tem a ver com a minha maneira de ser e eu sei-o. assim, vou usar o blog como um instrumento para me esforçar a ter menos filtro e expor-me um pouco mais. pode correr bem, pode correr mal, pode ser só passageiro.

partilhar as coisas de que gosto não é assim tão mau. não pensar tanto no que isso reflecte de mim para os outros.

por isso, acho que merece uma explicação das coisas que acrescentei.
- o Rititi, porque comecei por odiá-lo porque me irritava porque era moda porque não percebia what all the fuss was about e aprendi a gostar e perceber que tem conteúdo e opiniões que valorizo e não é só espalhafato.
- o Mood Swing (Batukada Sebem), que descobri não sei bem como, porque acho que na minha cabeça falo assim. gosto de achar que tenho piada assim.
- o Aurea Mediocritas porque é o elogio da mediocridade, da ironia, do nonsense e da geekness.
- o Crónicas dos Pequenos Delitos, que descobri enquanto fingia que trabalhava como recepcionista numa empresa. porque nunca pensei interessar-me pelo mundo do Direito, porque o meu género favorito de contos são os do dia-a-dia, por coisas como esta:

o angolano dos olhos de ponta-e-mola

Estado civil?, pergunta o juiz. Estou junto com uma melher, responde com um azedume áspero, reforçando o desprezo na sílaba tónica mal formulada. Os olhos do angolano lembram gumes, facas, navalhas de ponta-e-mola. Ao identificar a ascendência, coisa a que está obrigado, troca o nome da mãe. Que mostre os documentos, é a melher que os tem. Ela que entre. Aproxima-se uma ucraniana, a cara escrevinhada de rugas precoces. Vasculha, nervosa, o saco de mão, à procura do passaporte dele, mas tira por engano o dela. Encolhe-se com medo ainda antes de este lhe rosnar baixinho, não é esse. Aos antecedentes criminais diz que esteve preso, que fugiu, é contumaz. Habilitações literárias? Não sabe o que é isso. Se estudou. Desconversa, envergonhado, tenho poucos estudos. Mas tem o quê, a primeira, a segunda classe? Nem isso. É que nunca viveu com os pais, teve uma infância difícil em Angola, na rua, justifica-se. Chegou a ir à escola, afinal? E ele, soltando a ponta-e-mola do olhar, empunhando agora todas as navalhas do mundo, enfrenta o juiz, não, nunca fui. Faz-se silêncio enquanto é tomada a devida nota e menção. Às tantas, deslargando no ar uma réstea de orgulho, mas sei escrever o meu nome, senhor doutor juiz, as facas caídas aos pés, as lâminas rombas dos olhos espalhadas por fim pelo chão.

espero que gostem. se não gostarem, vou ter de aprender a não me importar com isso.




07 dezembro 2009

last day on the job

eu já sabia, quando comprei um caderno grande com a sensação de que não o ia acabar.





"there's someone i forgot to be"

04 novembro 2009

eu já desconfiava

shy + cool = hot





bernardo sassetti vai para a lista das pessoas com quem eu gostaria de casar.